Contos, crônicas e outras coisas Poesia à flor da pele

Amor trancado no portão de ferro

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As horas vindas após um velório costumam ser lentas e pesadas. É preciso entender que a razão da vida é a morte para que a angústia não consuma o coração de quem há décadas trocou a esperança pela paciência. Após os filhos criados, cada velório traz uma pergunta: quando será o meu? Era esse o pensamento de Olavo enquanto caminhava em direção ao seu carro, do lado de fora do cemitério municipal. Tantas décadas longe daquela cidade e nada parecia igual. Nada lhe trazia lembranças. Só o cemitério de uma cidade nunca muda, nada move a morte de seu passo brando. Olavo se lembra de algo e pergunta se a rua de sua infância ainda seria a mesma, se a casa de portão de ferro ainda estaria lá.

Olavo decide ir até lá. São duas ou três quadras. Em dez minutos, ele já caminha pelas calçadas de sua infância. Tropeça já no primeiro desnível com a garotinha linda de sua infância. Ouve longe sua mãe mandando tomar cuidado com os carros na esquina. Enquanto caminha, devagar, sua mente corre, pula os canteiros e chega arfando ao portão de ferro, onde morava Mariana. Mariana que Olavo amou tanto nas férias de final de ano, o último ano em que morou na cidade antes da família se mudar. Olavo aos poucos chega onde seus pensamentos o aguardam afogueados. É difícil acompanhar tantas lembranças correndo soltas, ainda mais as de um garoto de doze anos apaixonado pela primeira vez em sua vida. Suas mãos enfim seguram trêmulas a fechadura do mesmo portão de ferro que um dia guardou o primeiro e único beijo que Mariana lhe dera. Olavo suspira como se pudesse trazer de volta, de dentro de si, todo o calor daquela manhã de janeiro em que Mariana o chamou de bobo e ele disse que ninguém poderia ser tão chata quanto ela. Ela olhou no raso de seus olhos e chorou instantaneamente. Ele ficou desesperado, pedindo perdão e prometendo fazer qualquer coisa para ela parar de chorar.

— Qualquer coisa? — disse Mariana cortando o soluço de pronto.

— Qualquer coisa! — e Olavo já pensava em comprar o maior sorvete do mundo praquela menina chata de tão linda. Talvez deixá-la ganhar na corrida.

— Me beija, Olavo. — e Olavo engasgou o estômago na boca.

— Te beijar? Como? — custou a perguntar, as palavras queimando em sua boca.

— Assim!

E Mariana tatuou seus lábios na boca de Olavo.

— Senhor? Posso ajudá-lo?

— Oi? Não… Não, meu jovem. Estou bem.

— O senhor parece perdido. Quer ajuda? O senhor tá segurando os lábios? Está passando mal? É a pressão? Quer um copo d’água?

— Não, não. Só me lembrei de algo. Já estou indo. Desculpe o incômodo.

Olavo retomou o caminho pelas calçadas de sua infância. Trêmulo, seu caminhar de uma vida inteira ia lento, consumindo os últimos passos na esquina do tempo. Tivesse dado um último suspiro, tivesse olhado para trás uma última vez, teria visto o portão se abrir para o rapaz que o abordara. Teria visto uma senhora pequena, de vestido floral e cabelos cinzentos beijar a face do rapaz lhe abençoando.

— Quem era no portão, Júnior?

— Não sei vó. Um velhinho. Acho que passou mal, mas disse que já estava bem e foi embora.

— Gente de idade é assim mesmo, Júnior. Entra, fiz café.

Enquanto seu neto entra pelo jardim, Mariana pousa as mãos sobre a fechadura do portão e, sentindo uma brisa quente como a de um janeiro perdido no tempo, suspira perguntando a si mesma quem poderia saber de Olavo, aquele garoto bobo a quem dera seu primeiro beijo de amor.

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