Amor não é docinho Contos, crônicas e outras coisas

Carniceiros e escarnecedores

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Na cadeia alimentar selvática, as hienas e os chacais reinam absolutos como carniceiros, animais que não atacam as presas, não enfrentam a caça, não correm riscos na luta pela sobrevivência. Vivem em bandos se alimentando das carcaças deixadas para trás por leões, tigres e outros predadores. Os carniceiros também atacam vítimas que supõem agonizar, cansadas ou doentes. Uma hiena jamais ataca frente a frente alguém cuja estatura supere seu restrito ângulo vertical de visão (calha que o pescoço dela não se levanta e ela não enxerga acima das sobrancelhas). Vivem, sobrevivem, sorrateiramente, de chutar leão morto, como dizem por aqui.

Na cadeia alimentar da religiosidade brasileira, alguns evangélicos têm se esmerado em garantir o lugar dos carniceiros (sim, esta é uma generalização. Se não te representa, fico feliz. Jesus também). No bioma das redes sociais, reproduzem-se absurdamente como praga ecológica. Assustam pela virulência errática com que tentam atacar a tudo e a todos, mas sempre sorrateiramente, sempre por trás, sempre por tocaia. Espantam ainda mais pelo barulho covarde que fazem quando reconhecidos e chamados pelo nome a uma luta justa num descampado qualquer. Tudo se transforma, então, num tremendo mal entendido, num erro de interpretação, numa “desinteligência entre irmãos”.

Não digo que sejam todos (muito embora, eu tenha generalizado acima), há os que, evoluindo, tiveram a trava do pescoço retirada e puderam ver acima e além, guiando seus caminhos agora pelas estrelas e pelo sol, não mais pelo cheiro de carniça ou morte das pretensas vítimas abandonadas. Embora este texto seja apenas uma reflexão, não uma análise de um caso ou uma situação pontual, recordo de vários casos que poderia discutir aqui. Mas o que me motiva, neste texto, é uma aberração zoológica que tenho observado. Que as hienas e os chacais sejam hienas e chacais, será sempre assim.

Sabe o que diz o velho deitado: diga-me com quem andas e te direi quem és? Prum velho deitado, o cara tem muita razão. Como disse, que hienas e chacais sejam carniceiros, é assim porque é e pronto. O que me espanta (ao ponto de me fazer redundante) é ver que os chacais e as hienas têm sequestrado e educado pequenos leões e filhotes de tigre. E nada mais triste do que ver leões e tigres agindo como carniceiros. Nada mais triste do que ver gente inteligente e esclarecida participando de ataques pessoais, fazendo afirmações jocosas, destilando veneno mordaz.

A quem me dirijo? A você que me lê, que caiu aqui de paraquedas ou veio de vontade própria. Se você é da raça das hienas, será em vão que escrevi. Mas, espero eu que sim, se há em você um soslaio de inteligência, se sua visão se levanta um tanto além das próprias sobrancelhas, procure os seus e saia desse bando, quiçá de carniceiros, quiçá de escarnecedores. Há um campo enorme de ideias, metáforas, imagens e vida a ser explorado. Há carne fresca e lutas honestas a serem desfrutadas. Apenas não se perca sendo aquém do que pode ser.

1 thought on “Carniceiros e escarnecedores”

  1. Caro Tom mais uma vez você escreve com pertinácia e revela uma faceta deste caleidoscópio religioso brasileiro.
    A julgar alguns comentários e críticas que observo nas redes sociais, percebo o veneno destilado, o ódio beligerante, e uma falta caráter, dignidade, e respeito, falta tolerada nos animais, mas, em gente o que acontece é uma espécie de mimetismo.
    Sobre os carniceiros e escarnecedores evangélicos, faço minha as palavras de José Ingenieros:
    “Homens medíocres têm a característica de imitar a quantos o rodeiam: pensar com a cabeça dos outros e ser incapaz de formar ideais próprios .
    Estão fora de sua órbita à engenhosidade, a virtude e a dignidade, privilégios dos caracteres excelentes; sofrem em razão deles e os desdenham. São cegos para as auroras; ignoram a quimera do artista, o sonho do sábio, e a paixão do apóstolo. Condenados a vegetar, não suspeitam que exista o infinito além de seus horizontes. O horror do desconhecido os ata a mil pré-juízos, tornando-os timoratos e indecisos: nada excita a sua curiosidade; carecem de iniciativa e se voltam sempre ao passado, como de tivessem os olhos na nuca”.

    Eis um retrato dos extratos da camada evangélica, que atira primeiro e conversa depois, crítica sem sequer se dar ao trabalho de ler um só linha do seu interlocutor.
    Hoje me deparei com o anuncio da morte do Dom Robinson Cavalcante por um tal de Julio Severo, que ao meu ver não tem qualquer escrúpulo, ou dignidade:

    “Robinson Cavalcanti, fundador de movimento esquerdista evangélico, é assassinado por filho adotivo”
    “Fundador do MEP (Movimento Evangélico Progressista), o maior movimento evangélico político esquerdista da história do Brasil, colunista da revista esquerdista Ultimato, candidato do PT: o trágico fim de um evangélico que não teve tempo ou disposição de desfazer os estragos que provocou na igreja evangélica brasileira.”

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Amor não é docinho Contos, crônicas e outras coisas

Carniceiros e escarnecedores

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Na cadeia alimentar selvática, as hienas e os chacais reinam absolutos como carniceiros, animais que não atacam as presas, não enfrentam a caça, não correm riscos na luta pela sobrevivência. Vivem em bandos se alimentando das carcaças deixadas para trás por leões, tigres e outros predadores. Os carniceiros também atacam vítimas que supõem agonizar, cansadas ou doentes. Uma hiena jamais ataca frente a frente alguém cuja estatura supere seu restrito ângulo vertical de visão (calha que o pescoço dela não se levanta e ela não enxerga acima das sobrancelhas). Vivem, sobrevivem, sorrateiramente, de chutar leão morto, como dizem por aqui.

Na cadeia alimentar da religiosidade brasileira, alguns evangélicos têm se esmerado em garantir o lugar dos carniceiros (sim, esta é uma generalização. Se não te representa, fico feliz. Jesus também). No bioma das redes sociais, reproduzem-se absurdamente como praga ecológica. Assustam pela virulência errática com que tentam atacar a tudo e a todos, mas sempre sorrateiramente, sempre por trás, sempre por tocaia. Espantam ainda mais pelo barulho covarde que fazem quando reconhecidos e chamados pelo nome a uma luta justa num descampado qualquer. Tudo se transforma, então, num tremendo mal entendido, num erro de interpretação, numa “desinteligência entre irmãos”.

Não digo que sejam todos (muito embora, eu tenha generalizado acima), há os que, evoluindo, tiveram a trava do pescoço retirada e puderam ver acima e além, guiando seus caminhos agora pelas estrelas e pelo sol, não mais pelo cheiro de carniça ou morte das pretensas vítimas abandonadas. Embora este texto seja apenas uma reflexão, não uma análise de um caso ou uma situação pontual, recordo de vários casos que poderia discutir aqui. Mas o que me motiva, neste texto, é uma aberração zoológica que tenho observado. Que as hienas e os chacais sejam hienas e chacais, será sempre assim.

Sabe o que diz o velho deitado: diga-me com quem andas e te direi quem és? Prum velho deitado, o cara tem muita razão. Como disse, que hienas e chacais sejam carniceiros, é assim porque é e pronto. O que me espanta (ao ponto de me fazer redundante) é ver que os chacais e as hienas têm sequestrado e educado pequenos leões e filhotes de tigre. E nada mais triste do que ver leões e tigres agindo como carniceiros. Nada mais triste do que ver gente inteligente e esclarecida participando de ataques pessoais, fazendo afirmações jocosas, destilando veneno mordaz.

A quem me dirijo? A você que me lê, que caiu aqui de paraquedas ou veio de vontade própria. Se você é da raça das hienas, será em vão que escrevi. Mas, espero eu que sim, se há em você um soslaio de inteligência, se sua visão se levanta um tanto além das próprias sobrancelhas, procure os seus e saia desse bando, quiçá de carniceiros, quiçá de escarnecedores. Há um campo enorme de ideias, metáforas, imagens e vida a ser explorado. Há carne fresca e lutas honestas a serem desfrutadas. Apenas não se perca sendo aquém do que pode ser.

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  1. Caro Tom mais uma vez você escreve com pertinácia e revela uma faceta deste caleidoscópio religioso brasileiro.
    A julgar alguns comentários e críticas que observo nas redes sociais, percebo o veneno destilado, o ódio beligerante, e uma falta caráter, dignidade, e respeito, falta tolerada nos animais, mas, em gente o que acontece é uma espécie de mimetismo.
    Sobre os carniceiros e escarnecedores evangélicos, faço minha as palavras de José Ingenieros:
    “Homens medíocres têm a característica de imitar a quantos o rodeiam: pensar com a cabeça dos outros e ser incapaz de formar ideais próprios .
    Estão fora de sua órbita à engenhosidade, a virtude e a dignidade, privilégios dos caracteres excelentes; sofrem em razão deles e os desdenham. São cegos para as auroras; ignoram a quimera do artista, o sonho do sábio, e a paixão do apóstolo. Condenados a vegetar, não suspeitam que exista o infinito além de seus horizontes. O horror do desconhecido os ata a mil pré-juízos, tornando-os timoratos e indecisos: nada excita a sua curiosidade; carecem de iniciativa e se voltam sempre ao passado, como de tivessem os olhos na nuca”.

    Eis um retrato dos extratos da camada evangélica, que atira primeiro e conversa depois, crítica sem sequer se dar ao trabalho de ler um só linha do seu interlocutor.
    Hoje me deparei com o anuncio da morte do Dom Robinson Cavalcante por um tal de Julio Severo, que ao meu ver não tem qualquer escrúpulo, ou dignidade:

    “Robinson Cavalcanti, fundador de movimento esquerdista evangélico, é assassinado por filho adotivo”
    “Fundador do MEP (Movimento Evangélico Progressista), o maior movimento evangélico político esquerdista da história do Brasil, colunista da revista esquerdista Ultimato, candidato do PT: o trágico fim de um evangélico que não teve tempo ou disposição de desfazer os estragos que provocou na igreja evangélica brasileira.”

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