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Eu nunca fui um craque da bola

 

Sou do tempo de bola de capotão e campo de terra.
Sou do tempo de bola de capotão e campo de terra.

Enquanto caminho pela calçada, rumo ao trabalho, uma bola vem rolando macia e para bem na frente dos meus sapatos. Uma bola dessas novas, leves como pluma, de corte a laser e encaixe cirúrgico, com cores vibrantes e um monte de selos que atestam sua performance mundial. Em quase nada parecida com as bolas da minha infância, feitas de couro grosso, gomos costurados e salteados em branco e preto. O ápice eram as chamadas bolas de “capotão”, grandes e, uma vez molhadas nas chuvas corriqueiras das férias, ficavam ainda mais pesadas, machucando dedões descalços e canelas finas. Vez ou outra um desavisado levava uma bolada no rosto e era garantia de muito choro e alguma briga.

– Tio…

Acho que todos os meus amigos pelo menos uma vez por ano perdiam o tampo do dedão do pé, chutando terra ou asfalto junto com a bola, em partidas organizadas entre os meninos com e sem camiseta. Ter chuteira era luxo, estar calçado já era uma vantagem (ou não). Os campos foram uma vida inteira de terra batida no inverno, de barro e lama no verão. Muitas vezes, bastavam tijolos no meio da rua e o asfalto nos acolhia e colhia nosso sangue. Hoje são de grama sintética. Grama já era uma realidade distante narrada pelos amigos que passavam férias fora ou visitavam os estádios com os pais.

– Ô, tio!

Eu nunca fui um craque da bola. No ataque, faltava pontaria. Na zaga, habilidade. Acabei indo parar no gol e o tamanho todo e a habilidade com as mãos me davam alguma vantagem. Tragédia familiar eram os óculos quebrados quase que mensalmente. A cada par de óculos perdido ficava mais longe o sonho de ter um par de luvas de goleiro, como aquelas do Carlos, goleiro da seleção.

– Pô, tio!!!

– Ahn? Oi?

– A bola, tio. Devolve pra gente! O tempo tá acabando.

Do outro lado da cerca, meninos vestindo uniformes de grandes clubes e chuteiras iguais aos dos atuais ídolos estavam impacientes, querendo a bola que um deles havia chutado alto demais e viera parar na calçada, onde eu caminhava até tropeçar não na bola, mas em doces lembranças de um tempo em que se precisava de muito pouco para ser feliz. Jogo a bola por cima da tela e volto ao meu caminho. Quem sabe um dia, eu ainda compre aquele par de luvas e volte a jogar no time da empresa.

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