Amor não é docinho Contos, crônicas e outras coisas Poesia à flor da pele

Pôr do Sol em Ibiza (ou porque não falo de amor quase nunca)

legítimo pôr do sol em ibiza

Não sou do tipo que expõe meus sentimentos, prefiro a perfídia de tripudiar na dor alheia. A dor alheia me é mais cara, mais sentida, consigo até ajudar o amigo que sofre de amor. Só rejeito o amigo que nunca sofre, nunca teme, que sempre vive seu amor com trilha sonora de propaganda de absorvente íntimo. Duvido até que em suas veias corra aquele líquido azul que os comerciais usam.

Não sou do tipo que se cala. E me calo com pouca frequência. Mas me calo. E, quando me calo, o faço para não ofender quem eu amo, para não expor quem me importa, para não atrair olhares outros ao que encanta o meu olhar. Quando me calo, o faço por ciúmes, para guardar para mim meu gostar. Falo tanto e o tempo todo sobre tanta coisa, mas por que não sobre amor, você me pergunta.

Uma vez disse a você que entendia Roberto Carlos e que, se tivesse o talento dele, tendo eu por você o mesmo sentimento que ele tinha por sua amada, falaria as coisas bonitas que ele fala. Mas não tenho esse talento. Minha pena foi afiada no veneno, sei e sofro. Então, escondo a pena como o gato que esconde as garras pra não machucar a quem venera. Nunca fui bom com as palavras. É verdade, sou mau com elas, como um gigolô que as usa para seu sustento (agora compreendo crônica do Luís Fernando Veríssimo).

Lembra quando disse que você era o meu Pôr do Sol em Ibiza? Depois me angustiei pensando que assemelhei você a algo que eu nunca vi de perto. Quis consertar, mas cada remendo que tento fazer em palavras de amor mais roto me sinto. Se até o Herbert Viana achou “que estar ao seu lado bastaria” e o Renato confessou que “só queria estar ali, sempre ao lado dela, eu não tinha aonde ir”, quem sou eu para tentar explicar o que é o amor?

Eu, que fui criado na jurubeba, na guariroba e no jiló, não sei fazer cupcakes em verso e prosa. Eu, que conheci tarde o amor, década depois de me amigar com a solidão, só sei sofrer em silêncio, no máximo ouvindo a banda mais bonita da cidade. Eu, que sou o pior dos piscianos e me torno a cada dia mais cético e me encho a cada dia mais de dúvidas, só sei me angustiar pela dor que a desconstrução que faço sempre de mim mesmo causa em quem só queria a segurança de um amor à prova de fogo.

Li logo cedo o conselho do Xico Sá: “Se tiver alguma rusga, peça perdão por escrito, pois perdão por escrito vale como documento de cartório”. Então, pronto, perdoa-me por não falar de amor. Falar de amor deveria ser fácil, reconheço! Mas é que desde que o conheci, prefiro vivê-lo a falar dele. Sobra-me amor, faltam-me palavras. Sou dos homens que mais fala, já me disseram; mas sou dos homens que se cala diante de algo maior que suas próprias palavras.

6 thoughts on “Pôr do Sol em Ibiza (ou porque não falo de amor quase nunca)”

  1. Sabe quando se ama, palavras são pouco para expressar o que sentimos. Muitas vezes acho que palavras são prisioneiras de sentimentos, elas são trancafiadas por eles, porque mesmo que fossem libertas e mesmo que fossem tantas, não conseguiriam expressar como o abraço ou o carinho de alguém. Como disse roberto
    Detalhes tão pequenos
    De nós dois
    São coisas muito grandes
    Prá esquecer

    O que vivemos transcende palavras e são maiores que elas e mesmo que vc seja o maior poeta do mundo não conseguirá traduzir o amor, mas sempre digo poetas estão no caminho de tentar traduzir sentimentos e acho tú estás nele.

    Bjs

  2. Caríssimo, sabe o que me ausentou dos comentários do seu blog? Você escreve muito bem e eu, iletrada que sou, fico vexada por demais em escrever algo aqui…
    Os 22 anos de convivência com meu marido me ensinaram a não criar expectativas com declarações verbais da parte dele, e nós seguimos tentando todos os dias aprender a dinâmica dos porcos espinho. Sei lá, só sei que a gente vive junto e a gente se dá bem…
    Talvez o Herbert tenha razão quando canta que saber amar é saber deixar alguém te amar… Só isso, ou tudo isso!

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